OUÇA O DISCO LEVAGUIÃ TERÊ DO VITOR ARAÚJO



22/09/2016

OUÇA O DISCO LEVAGUIÃ TERÊ DO VITOR ARAÚJO


Mas esse levaguiã não vem de lonjura que se anda. Fosse assim, já era demasiado dizer de onde a capivara bebe água, os teiús se revelam dos versos das folhas e o macio traiçoeiro do mangue esconde a dura turvalema. Também não basta a lonjura que se lembra. Fosse assim, já era demasiado dizer onde o Brasileiro fez sua Alexandria, os ka’aeté foram velados no verso da história e os escolhos beberam como nunca de seus tantos naufrágios. É que o tal levaguiã vem de um tempo que se sonha e de um lugar que se desencontra.
 
A bigorna agreste dos eventos não se acomoda à linearidade das narrativas esperadas, qual causalidade das alcovas, ansiada por um Comte ou por um Ranke, ou do fruto madurado, assim tratado por Coulanges qualquer escorado que as instituições acolham sob suas asas protetoras. Ao fim e ao cabo, a história mais semelha as trilhas enredadas de um tear carrandil, em que os caminhos são compreendidos na medida em que propostos. Não há trilhos determinados. Este trem não tem destino. O vagão que seguia guia o próximo desvio, vertido em Maria-fumaça no reverso do caminho.
 
 
Não conjuro com isso a desnecessidade de um mestre. Este, mesmo se de corpo presente, deve ser inventado. Inventa-se o mestre a cada aula, seja pelas palavras que por graça nos concede, seja pelo feito solitário dos abrolhos que brotamos de seu hinário de silêncios. Villa-Lobos fez o mesmo com os seus, e os seus dele fizeram muitos maestros. É da alçada do artista gestar o seu mestre, negado pelo parto de cada possibilidade nele insuspeita, imprevista, atrofiada, mas que o recurso da criação restitui em seu devido tempo: um tempo passado descoberto na inflorescência do futuro. Quem garantirá onde mora o gênio? Se no invento que suspende o fôlego, ou na amplificação, instrução que revela quão diminuta é nossa aspiração perante a arquitetura almejada? Destes fiordes de palavras, ou nessas falésias de concreto, a orquídea gerou o hiato cujo distante sol alentou de vida a umidade recolhida. O álcali maturado descobre um jângal em cada solitário abraço da carena. O levaguiã aluna distante das faixas aradas pelos terês, mas ele vem; seja pela fome de olvidado, seja pela amusia em que perecem as entidades caídas da fauna e do folclore, quando roçadas pela arqueologia. Se a seara é conhecida, a saga surpreende. Por mais esperada, a safra guarda notas que os mais velhos se importunam dos aparelhos de seus netos, mas o erudito surpreenderá o Caldí- Naguará no Marais, desaparecendo com o Ôgiffoxó pela Saint-Merri.
 
 
Nosso rando fálcigo vem de outros pântanos, mas a diversidade do líquen somente colabora para a singularidade do sumo. O levaguiã a perder de vista. Se veio, foi ligeiro, porque a última volta recolhe as outras órbitas em um lamento. É preciso ouvir direito. À educação pela escuta chamamos obediência. Ao confrontarmos a audiência, ela se corporifica em toda sua alteridade, em toda sua resistência de entidade, em toda densidade que um corpo espiritual deve se apresentar. A fibra toante deve nos vestir na medida em que o corpo da musa se desnuda. Somente pela arte se deixa conhecer a nudez enlutada dos desfechos. Recomecemos, que o belo é um sujeito distinto pela releitura.
 
 
Sílvio Moreira - Pesquisador Me. em Filosofia e Estética,
Professor da Faculdade Souza Lima & Berklee.
Setembro de 2016
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